O pássaro e a pluma

Eis dois personagens leves, que Leila Ferreira me trouxe à reflexão em seu livro “A arte de ser leve”.

Dois tipos diferentes de leveza.
A leveza da pluma a faz plainar sem intenção, apenas a partir de qualquer sopro. É passiva.
A leveza do pássaro também é suficiente para fazê-lo voar, mas eis um vôo com direção, com meta, com objetivo. Uma leveza combinada à iniciativa, à ação.

A vida é pesada, sim. Muitas vezes não parece brincadeira. Muitas vezes é preciso rebolar para seguir em frente. Muitas vezes dá vontade de desistir.

Educar também é assim: difícil e muuuuitas vezes dá vontade de passar a bola pra frente. Mas, neste caso, não dá.

Dá, sim, pra dividir responsabilidades, para compartilhar decisões. Mas pular para fora do barco, não dá. Aliás, acabei de citar duas alternativas que podem fazer tudo ficar mais leve: dividir responsabilidades e compartilhar decisões.


Educar com leveza é ter responsabilidade e autoconhecimento suficiente para solicitar co-participação.

Educar com leveza é abdicar daquela suposta imagem de quem sabe tudo, de quem é super poderoso, de quem é auto-suficiente.

Educar com leveza pressupõe entender que é impossível controlar tudo. Portanto, é abrir mão de expectativas que nascem daqueles planos perfeitos e infalíveis. É abrir mão de encaixar, você ou a criança, em qualquer tipo de padrão - porque é isso que mata a essência (aquela essência que define nossa felicidade).

Quando me refiro a educar com leveza, digo da leveza do pássaro. Aquela que sabe onde quer chegar. Aquela que traça uma rota possível e que até permite alteração de trajeto se o vento soprar mais forte para o outro lado, mas não desiste de seu destino final.

Educar com leveza é ser pássaro, não pluma.

Manifesto para o educar com Leveza e Criatividade

Se a natureza permite brotar uma semente,
Ela não faz isso por acaso.
Existe um propósito nisso.

A semente virá a SER.
A depender de suas relações,
A depender da sua educação,
A semente vira SER.

Um SER que não veio à vida por acaso.
Existiu um propósito nisso.

Cada ser compõe nossa comum-unidade.
Cada ser, do jeitinho que é, nasce para uma missão.
Nasce para participar ativamente dessa comum-unidade.

É sua diferença que o faz único.
Em sua essência está seu propósito.
Propósito pelo qual ele, único, existe.

Nesta comum-unidade,
Este ser relaciona.

Relacionar-se é natural do existir.
Educar é necessário para co-existir, conviver.

Através da Educação,
Através das relações,
Este ser se constitui ou não.

Em seu próprio caminho ou não,
Na sua essência ou não.
Com seu propósito ou não.
Realizado ou não,
Feliz ou não,
Participativo ou não.

Caberá ao educador
Facilitar este vir a ser.

Educar com leveza
É abrir mão de expectativas,
É abandonar padrões,
É podar em vez de cortar.
É olhar este ser como ele é.

Educar com respeito à criatividade
É acreditar no poder da sua imaginação.
É nutrir sua curiosidade.
É ensiná-lo sobre fracasso,
Sobre risco, sobre coragem.

Educar com leveza,
Com respeito à criatividade
É guiar este vir a ser
Para seu próprio caminho.
Na sua unidade.
Com seu propósito.
Realizado,
Feliz,
Participativo.

Educar com leveza,
Com respeito à criatividade
É construir uma nova era
De adultos
Realizados,
Felizes,
Participativos.


Filho não é prioridade

Filho não é prioridade! Tive este insight quando estava finalizando minha mudança de Minas para São Paulo.

Eu entrei no apartamento em que eu morava até dez dias atrás e o vi completamente vazio.
Não foi “vazio” o que eu senti, mas uma certa nostalgia, angústia talvez.
Vi o quartinho que preparei com tanto carinho para a chegada da minha filha vazio.
Me despedi da escada onde ela aprendeu a ficar de pé e a subir.
Estranho porque estes foram os dois pontos da casa que mais me tocaram.

Eu tinha um cômodo só para o meu ateliê, meu Office. O vi vazio e não senti nostalgia nem angústia.

A uns tempos atrás, este seria o ponto de maior sensibilidade para mim numa mudança.

É estranho como o nosso modo de ver a vida se altera depois de ter filhos...
E me vi refletindo sobre o que muita gente diz: “eles passam a ser a nossa prioridade”. Mas eu tenho um grande receio acerca desta afirmação.

É claro que muita coisa muda e que agora temos que pensar em outras pessoas além de nós, mas eles não devem ser nossa prioridade. Explico:
Sabe aquele alerta que as pessoas escutam quando viajam de avião? “Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão a sua frente. Antes de ajudar uma criança, coloque sua própria máscara.”

Esse alerta resume o tal receio que citei acima.
Nosso filhos não devem ser nossa prioridade.
Nós devemos ser nossa própria prioridade.
Para o nosso bem mas, especialmente, para o bem deles!

Na ansiedade por salvar a vida de uma criança, pode ser que, quando caírem as máscaras, a gente queira logo colocar o oxigênio primeiro neles, mas e se seu oxigênio acabar antes de você colocar a máscara nela, o que acontece? Morrem os dois - provavelmente.
Aí você pode pensar: "mas e se o oxigênio da criança acabar enquanto eu estiver colocando a minha máscara", ué, você terá condições suficiente para ajudá-lo a recuperar sua respiração. Isto é: porque você estará respirando. Você estará vivo(a)!
Em um segundo tudo muda e o pior pode acontecer pela falsa crença de que os filhos devem ser nossa prioridade!
Afinal, como os farei felizes sem me sentir feliz?

Então, se você cuidar mais de seus filhos do que de você mesmo(a), uma hora pode restar só um fiasquinho de você e sua tarefa não ser completada com êxito.

Enfim... Já parou pra pensar em quanta a coisa a gente escuta, acha bonito e repete sem pensar?!

Não são verdades, são apenas possibilidades de reflexão.



PS: se você ainda não tem filhos, está grávida(o) ou pensando em ter filhos, vai aqui uma dica - até mais ou menos os 3 meses de vida de um bebê, é realmente complicado a gente “cuidar da gente”. É um período de muita novidade e, por isso, tudo bem se você se “abandonar” um pouquinho nesse momento (muitas mulheres esquecem até de escovar os dentes). Não se cobre!!! Mas a grande questão é você ter em mente que se você se “abandonar” para sempre, quem mais perde (além de você) são seus próprios filhos.